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POR ANDREA CARVALHO STARK, Rio de Janeiro, Brasil, agrinalda@gmail.com



A carreira da cantora lírica e atriz italiana Augusta Candiani foi tema de minha dissertação de mestrado em História e Historiografia do Teatro Brasileiro, defendida pela Escola de Teatro da UNIRIO. Agora estou finalizando um livro biográfico sobre a nossa primeira Casta Diva, contemplando novos materiais e informações organizados em mais de quinze anos de pesquisa sobre o tema.

Esse BLOG serve a mim como apresentação, release e divulgação desse meu trabalho, quando necessário.












Uma breve biografia

Augusta Candiani
Carlotta Augusta Angeolina Candiani - Itália, Milão, 03 de abril de 1820 – Brasil, Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1890

Na história do teatro e da música no Brasil, a cantora lírica e atriz AUGUSTA CANDIANI nem sempre é referência em grande destaque. Entretanto, estudando sua trajetória de arte e vida nos deparamos com o próprio densenrolar dos modos de produção e criação artística na música – modinhas e ópera italiana – e no teatro - peças realistas e francesas, comédias, operetas, mágicas - do século XIX. Portanto, não hesitamos em afirmar que nenhuma história do nosso teatro ou da música deste período estará completa se não houver ao menos um capítulo sobre sua história, sua vida, sua voz. Mas como é possível ouvir a voz – algo de imensa fugacidade que o tempo não guarda? A voz de outrora são palavras hoje, pois quem fornece a dimensão da arte de Candiani são alguns poetas anônimos que publicavam versos em sua homenagem ou jovens românticos, como Machado de Assis. Augusta Candiani foi, dentre as primas donas de seu dileto afeto, a mais citada em crônicas, romances e poesias. Por exemplo, as crônicas da revista "A Semana", o conto "Verba Testamentária" e o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas” e talvez uma de suas primeiras poesias seja mesmo dedicada à cantora - “À Augusta”, de 1859. Não só o bruxo do Cosme Velho, mas também Joaquim Manoel de Macedo em seu romance “O Moço Loiro” e Martins Pena em seus “Folhetins” registraram a comoção que a prima-dona italiana causava nas platéias românticas. O Império e seu jovem imperador D. Pedro II aplaudiram embevecidos a sua voz.

Em dezembro de 1843, a então jovem de 23 anos, já casada com o farmacêutico Gioacchino Candiani Figlio,chega ao Rio de Janeiro como a prima-dona da Companhia Italiana de Ópera. Sua estréia ocorre em 17 de janeiro de 1844, no Teatro São Pedro de Alcântara. A Companhia apresenta a primeira montagem no Brasil da ópera “Norma” de Vicenzo Bellini (1801-1835) e Candiani interpreta o papel título. A partir de então, a ópera italiana assume um lugar de extrema importância no cenário artístico da Corte –inclusive inspirando músicos brasileiros a iniciar o movimento da Ópera Nacional. Era o Rio de Janeiro, sem dúvida, a cidade da ópera. A ária “Casta-Diva” torna-se bastante conhecida através da interpretação de Candiani, influenciando a composição de modinhas baseadas no tema e na composição de Vicenzo Bellini.

Além da ópera, Candiani também cantou modinhas – transpondo as barreiras entre o erudito em língua italiana e o popular em língua portuguesa. Esse gênero de música popular a soprano italiana teve a primazia de levar ao palco do teatro nos entreatos das óperas. Fato este que ocorreu pela primeira vez em 1845, quando Candiani cantou no Teatro São Januário a modinha “A Sepultura de Carolina”, letra de Lemos de Magalhães com música de M. Rafael.

Em março de 1844 nasce sua primeira filha, Theresa Christina Maria Candiani Figlio, batizada com o nome de sua madrinha, a Imperatriz Theresa Christina, D. Pedro II era também padrinho da menina. Em 1846, já se encontra separada de seu marido italiano e convive com o compositor de modinhas José de Almeida Cabral. O episódio causou inúmeros constrangimentos na época, com cartas de Gioacchino publicadas em jornais revelando publicamente os desagravos com a ex-esposa. O divórcio retirou de Augusta todos os seus bens e a guarda de sua filha. A cantora se afasta do centro da Corte e passa a cantar em outros palcos, viajando pelo interior fluminense, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, onde se apresentou no importante Teatro Santa Isabel, em Recife.

Empresariada pelo seu segundo marido, Candiani atua na Companhia Dramática Cabral. Junta-se a essa Companhia a atriz Maria Augusta, sua filha com Cabral. Atuando como atriz dramática por várias cidades brasileiras, Candiani nunca deixou de cantar modinhas ou árias de seu repertório romântico que incluía principalmente obras de Gaetano Donizetti e Vicenzo Bellini. Deste modo, levava o teatro e a música da Corte para outros recantos do país. No Rio Grande do Sul, onde estabeleceu residência, trabalhou como professora de canto e é presença sempre citada quando se revê a história do teatro do século XIX nas cidades de Rio Grande, Porto Alegre e Pelotas.

Voltando ao Rio de Janeiro em 1877, Augusta Candiani passou a atuar em pequenos papéis de comédias, mágicas e operetas, trabalhando inclusive com o grande ator de comédia na época, Francisco Corrêa Vasques, e com o empresário Jacinto Heller, mantendo-se na cena artística até o ano de 1880. É esse o período em que Augusta Candiani retira-se do teatro e passa a viver em Santa Cruz, Rio de Janeiro, em casa doada pelo Imperador. Falece aos sessenta e nove anos, três meses após a proclamação da República, longe da fama e do prestígio que lhe dera o título de “Diva”.

FONTE: CARVALHO, Andrea. Augusta Candiani(VERBETE) . Schumaher, Schuma; Brasil,  Érico Vital (org.) Dicionário Mulheres do Brasil – de 1500 até a atualidade. Biográfico e ilustrado. Jorge Zahar Editor, 2000.
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